Ano A

Advento 2016: Silêncio

27. Novembro. 2016

No ano pastoral 2016+17 vamos aprofundar a temática da fé contemplada, tendo Maria de Nazaré como modelo prioritário de fé e de contemplação. Para isso, começamos com uma característica essencial da fé contemplada: o silêncio. O Advento surge como oportunidade para encontrar «um tempo diferente», um tempo preenchido pelo silêncio. Em 2016, o tempo de Advento tem início no dia 27 de novembro (e prolonga-se até à manhã do dia 24 de dezembro).

A predominância digital que caracteriza o nosso tempo carece de silêncio e, por conseguinte, de contemplação. As imagens digitais, diz o filósofo Byung-Chul Han, não são compatíveis com o silêncio. Num ensaio intitulado «Fecha os olhos, por favor», o filósofo sugere a necessidade de procurar um tempo diferente, um tempo caracterizado pelo silêncio. Sim, porque as imagens sem silêncio «não falam nem narram, apenas fazem ruído». Ora, isto afasta a possibilidade de contemplação, pois as atuais imagens digitais estão construídas de tal maneira que não é possível fechar os olhos. «Entre elas e o olho produz-se um contacto imediato, que não admite qualquer distância contemplativa». O Advento surge como oportunidade para encontrar «um tempo diferente», um tempo preenchido pelo silêncio.

Mãe do silêncio

Maria é nossa companheira de viagem, não só neste Advento, mas em todo o ano pastoral (2016+17). Associados ao Centenário das Aparições em Fátima (2017), queremos viver um “Ano Mariano”. Este ano consagrado a Maria inspira-se na sugestão de São João Paulo II, aquando da preparação do bimilenário do nascimento de Maria tendo em vista o Jubileu do nascimento do seu Filho, no ano dois mil: «Torna-se perfeitamente compreensível que neste período desejemos voltar-nos de modo especial para Aquela que, na ‘noite’ da expectativa do Advento, começou a resplandecer como uma verdadeira ‘estrela da manhã’» (Carta Encíclica sobre a Bem-aventurada Virgem Maria na vida da Igreja que está a caminho – «Redemptoris Mater» [A Mãe do Redentor], 3). Todavia, esta tonalidade mariana não nos afasta do plano orientado pela «redescoberta da identidade cristã e do dom da fé». Assim, neste ano pastoral vamos aprofundar a temática da fé contemplada, tendo Maria de Nazaré como modelo prioritário de fé e de contemplação. Para isso, começamos com uma característica essencial da fé contemplada: o silêncio. Esta é uma atitude que envolve toda a vida de Maria. Ela é «mãe do silêncio» como exprime Chiara Casucci num poema musicado por Mite Balduzzi. Bem sabemos que há vários tipos de silêncio. Então, ao silêncio vazio de sentido, que às vezes parece dominar a vida das pessoas e da sociedade, contrapomos o silêncio luminoso, aquele «que corresponde ao mistério da vida, ao significado transcendente do destino, não apenas de Maria, mas do seu divino Filho, ao destino de todas as pessoas. É o silêncio em que se envolve o mistério de Deus; e só a partir dele é que Deus pode falar, e fala; e convida a entrar nele. Também o silêncio, tal como as palavras, reclama escuta» (Giovanni Lajolo, «Maria – Silêncio e Palavras», ed. AO). É, pois, este silêncio que desafia a fechar os olhos e remete para a contemplação, para a fé contemplada. Em Maria, como queremos que aconteça em cada um de nós, este silêncio envolve toda a vida, é silêncio repleto da presença de Deus. O silêncio contemplativo permite-nos encontrar a paz e a novidade que nos faz ver, com olhos novos, a maravilhosa obra de Deus no mundo. Um silêncio que brota da interioridade e para ela encaminha como «lugar» primeiro do encontro com o próprio ser e com Deus («interioridade» é a proposta que vai preencher o tempo de Natal).

Laboratório da fé contemplada

A fé contemplada pede para abrir o coração e a vida à fecundidade do Espírito Santo. «O Espírito Santo virá sobre ti» (Lucas 1, 35) — são palavras que hoje expressam a ação divina no ser humano. Só assim é possível penetrar o mistério profundo e silencioso de Deus na vida de cada pessoa, crente ou não crente. Mesmo sem compreender tudo o que acontece na vida e à nossa volta, encontraremos oportunidades para os silêncios contemplativos, com e como Maria. «São silêncios em que ela conserva e envolve episódios vividos e palavras escutadas no seu pensamento atento, amoroso, inclinado para a procura do significado. É um pensar com o coração: logo, no silêncio profundo do seu ser, onde factos e palavras proferidas são objeto de espontânea reflexão e ressoam de novo, ou são voluntariamente trazidos de volta à mente e explorados no concreto do que foi vivido, com a sua carga de angústia, de ansiedade ou ainda de alegria — juntamente com os seus significados ideais. São silêncios nos quais Maria busca a luz interior para o quotidiano do amanhã e dos anos que se seguirão. São silêncios penetrantes» (Giovanni Lajolo).