Anunciar a alegria da fé

Âmbito para a escuta da palavra [2]

21. Junho. 2016

«Um pregador que não se prepara não é ‘espiritual’: é desonesto e irresponsável quanto aos dons que recebeu» — afirma o papa Francisco, no número 145 da Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual (EG). Este tema, inserido no tópico da paróquia missionária como «âmbito para a escuta da Palavra», destaca a importância da preparação, em três alíneas: culto da verdade; personalização da Palavra; escuta do povo.

«Um pregador que não se prepara não é ‘espiritual’: é desonesto e irresponsável quanto aos dons que recebeu» — afirma o papa Francisco, no número 145 da Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual (EG). Este tema, inserido no tópico da paróquia missionária como «âmbito para a escuta da Palavra» (cf. tema 14), destaca a importância da preparação, em três alíneas: culto da verdade; personalização da Palavra; escuta do povo. Antes de mais, o Papa lembra que «a preparação da pregação é uma tarefa tão importante que convém dedicar-lhe um tempo longo de estudo, oração, reflexão e criatividade pastoral». Até porque «a confiança no Espírito Santo que atua na pregação não é meramente passiva, mas ativa e criativa» (EG 145). Aqui, o que se diz aos pastores, também se pode aplicar, com ligeiras adaptações, a todos os evangelizadores (a todos os cristãos).

Homilia: culto da verdade

«O primeiro passo, depois de invocar o Espírito Santo, é prestar toda a atenção ao texto bíblico […]. Quando alguém se detém procurando compreender qual é a mensagem dum texto, exerce o ‘culto da verdade’». A interpretação do texto requer «paciência […], amor […], com a atitude dum discípulo» (EG 146). Neste campo, a primeira tarefa é saber o que diz o texto, «compreender adequadamente o significado das palavras». Trata-se de um texto cuja «linguagem é muito diferente da que usamos agora». Mas a atenção aos pormenores da linguagem não é o objetivo prioritário: «o mais importante é descobrir qual é a mensagem principal […], aquela que o autor quis primariamente transmitir» (EG 147). E, «para se entender adequadamente o sentido da mensagem central dum texto, é preciso colocá-lo em ligação com o ensinamento da Bíblia inteira, transmitida pela Igreja» (EG 148).

Homilia: personalização da Palavra

A boa preparação da homilia implica que a Palavra seja interiorizada, em primeiro lugar, pelos que têm a missão de a anunciar. Trata-se de promover «o amor pela Palavra». Aliás, a Palavra não fará eco no coração dos ouvintes se antes não tiver ecoado no coração dos pregadores. «Se está vivo este desejo de, primeiro, ouvirmos nós a Palavra que temos de pregar, esta transmitir-se-á duma maneira ou doutra ao povo fiel de Deus» (EG 149). O contrário deste desejo foi já denunciado por Jesus Cristo. Ele «irritava-Se com pretensiosos mestres, muito exigentes com os outros, que ensinavam a Palavra de Deus mas não se deixavam iluminar por ela». Por isso, «quem quiser pregar, deve primeiro estar disposto a deixar-se tocar pela Palavra e fazê-la carne na sua vida concreta. Assim, a pregação consistirá na atividade tão intensa e fecunda que é ‘comunicar aos outros o que foi contemplado’». Depois, «tem que aceitar ser primeiro trespassado por essa Palavra que há de trespassar os outros, porque é uma Palavra viva e eficaz […]. Isto tem um valor pastoral. Mesmo nesta época, a gente prefere escutar as testemunhas» (EG 150). Bem sabemos que os pregadores não são «imaculados», mas para anunciar a Palavra de Deus é preciso estar disposto a «melhorar», a «progredir no caminho do Evangelho», sem deixar «cair os braços». Ao mesmo tempo, é indispensável que «o pregador esteja seguro de que Deus o ama, de que Jesus Cristo o salvou, de que o seu amor tem sempre a última palavra. […] Todavia, se não se detém com sincera abertura a escutar esta Palavra, se não deixa que a mesma toque a sua vida, que o interpele, exorte, mobilize, se não dedica tempo para rezar com esta Palavra, então na realidade será um falso profeta, um embusteiro ou um charlatão vazio» (EG 151).

Homilia: escuta do povo

A preparação adequada exige ainda a «escuta do povo, para descobrir aquilo que os fiéis precisam de ouvir. Um pregador é um contemplativo da Palavra e também um contemplativo do povo. […] Trata-se de relacionar a mensagem do texto bíblico com uma situação humana, com algo que as pessoas vivem, com uma experiência que precisa da luz da Palavra. […] Então a preparação da pregação transforma-se num exercício de discernimento evangélico» (EG 154). Trata-se de «intensificar a sensibilidade para se reconhecer o que isso realmente tem a ver com a vida das pessoas. […] Partir de algum facto para que a Palavra possa repercutir fortemente no seu apelo à conversão, à adoração, a atitudes concretas de fraternidade e serviço» (EG 155).

A minha paróquia está bem preparada biblicamente? Há tempos próprios dedicados à formação bíblica? De acordo com o Papa, quais são as características do pregador/evangelizador? A escuta da Palavra é acompanhada pela escuta das interpelações da vida?