Quaresma 2016

Gerar conversão

9. Fevereiro. 2016

Gerar conversão consiste em assumir a dinâmica de conversão em contexto de pastoral de gestação. Gerar conversão é aceitar «a primazia da escuta orante da Palavra, especialmente a palavra profética». Da «escuta orante da Palavra» hão de surgir «atos concretos e quotidianos, destinados a ajudar o nosso próximo»: as obras de misericórdia.

«Convertei-vos…» — é a exortação que ecoa no início da Quaresma através do profeta Joel, texto proposto para primeira leitura de Quarta-feira de Cinzas (Joel 2, 12-18). É como um toque de telemóvel a anunciar a chegada de uma mensagem ou de uma chamada que merece a nossa atenção e resposta. Mas o convite à conversão não é «naturalmente simpático. Pelo contrário, amedronta, porque vai imediatamente direito ao coração, ao centro da nossa pessoa; tem por alvo o núcleo divino da liberdade de que todo o ser humano é portador, que nos constitui como pessoas e graças ao qual tanto somos capazes de nos enrolar em nós mesmos e virar o mundo para nós, como de sair de nós, abrindo-nos a Deus, ao mundo e a todos. É precisamente no modo como a nossa liberdade se orienta, fechando-nos ou abrindo-nos, que há de situar-se a conversão. Mais ainda, a conversão é esse orientar-se. De onde e para onde?» (Ignacio Iglesias, A alegria da conversão, ed. Apostolado da Oração).

Quaresma: gerar conversão

Gerar conversão consiste em assumir a dinâmica de conversão em contexto de pastoral de gestação. Tal como a conversão, «a pastoral de gestação tem a ver com a identidade das pessoas. É um dos seus principais traços. […] A pastoral de gestação reconhece que cada um/a é único/a e visa promovê-lo/a naquilo que ele/a tem de mais pessoal. […] Só Deus pode ‘gerar’ alguém, levando-o a partilhar a sua vida. As questões que se levantam não são, portanto: Como é que a Igreja pode suscitar novos cristãos? Que estratégias pastorais convém desenvolver para ser mais eficaz? De maneira nenhuma. As interrogações são antes do tipo: Que se passa entre Deus e estes homens e estas mulheres que vivem na aurora do século XXI? Que caminhos toma Deus para chegar a eles e fazê-los nascer para a sua vida? De que modo é que Ele convida a Igreja a transformar a sua forma tradicional de crer e de viver para permitir o encontro?» (Uma nova oportunidade para o Evangelho. Para uma pastoral da gestação, ed. Paulinas). Então, a questão essencial para gerar conversão não é «de quê a quê?», mas «de quem a Quem?». Neste contexto, a conversão percebe-se em todo o seu sentido: mudar de mentalidade, de comportamentos («metánoia») e voltar-se para Deus («epistrofé»). Na verdade, a conversão não consiste numa «cirurgia estética» exterior, mas uma «intervenção cirúrgica» profunda. Ora, «quer irrompa de surpresa, quer vá amadurecendo insensivelmente como um fruto, ou se amplie sob a forma de drama violento, a conversão é, em princípio, um processo permanente. E para todos […] como um novo nascimento» (Ignacio Iglesias). Gerar conversão é aceitar o convite a nascer de novo para uma vida autêntica, à luz da palavra de Deus. Gerar conversão é aceitar «a primazia da escuta orante da Palavra, especialmente a palavra profética» (Francisco, Mensagem para a Quaresma), tendo como guias orientadores os textos bíblicos das primeiras leituras de cada dia (em especial de cada domingo da Quaresma). Da «escuta orante da Palavra» hão de surgir «atos concretos e quotidianos, destinados a ajudar o nosso próximo»: as obras de misericórdia. «A Quaresma deste Ano Jubilar [da Misericórdia] é um tempo favorável para todos poderem, finalmente, sair da própria alienação existencial, graças à escuta da Palavra e às obras de misericórdia» (Francisco).

Laboratório da Fé anunciada

A conversão, «aspeto fundamental» a identidade do discípulo missionário, «é a resposta inicial de quem escutou o Senhor» (Documento de Aparecida, 278). Na verdade, é a escuta do Senhor Jesus Cristo, a Palavra de Deus Pai descida ao coração do crente, que conduz à resposta da fé. «Uma vez escutada, a palavra de Cristo, pelo seu próprio dinamismo, transforma-se em resposta no cristão, tornando-se ela mesma palavra pronunciada, confissão de fé» (Francisco, Carta Encíclica sobre a fé — «Lumen Fidei», 22). E da «fé professada» (acreditar) passa-se à «fé anunciada» (evangelizar). A conversão na perspetiva da «fé anunciada» convoca para a missão de levar aos outros esta experiência de escuta/resposta; e, portanto, levar os outros a entrar em contacto com a nossa própria conversão: «convertidos para converter», convertidos para anunciar «a alegria da conversão» (Ignacio Iglesias). Não se trata de propor práticas expiatórias ou culpabilizantes, mas de ajudar cada um/a ao ato livre de adesão ao amor misericordioso de Deus. «Não percamos este tempo de Quaresma favorável à conversão!» (Mensagem para a Quaresma).