Tempo comum

Gerar fé

9. Janeiro. 2016

Gerar fé. É a temática que propomos para a primeira parte (entre a festa litúrgica do Batismo de Jesus e o início da Quaresma) do «Tempo Comum». Nele, convidamos a frequentar duas «escolas»: a «escola permanente da Palavra bíblica» através dos textos propostos para a primeira leitura de cada domingo; a escola «do mistério de Cristo a sua totalidade». Este há de ser um «tempo favorável» para a gestação da fé. 

«Gerar. Este verbo evoca espontaneamente a ação do homem e da mulher que dão a vida: gerar, trazer ao mundo, educar, fazer crescer… Mas a criança, por sua vez, gera os seus pais, fazendo-os tornar-se pai e mãe. Reciprocidade de uma relação em que a vida circula» (Uma nova oportunidade para o Evangelho. Para uma pastoral da gestação, ed. Paulinas). Desta naturalidade biológica damos o salto imagético para a relação entre Deus e o ser humano. Esta também é (ou pode ser) uma verdadeira «experiência criadora». Neste sentido, «escutar a Palavra lendo a Escritura é uma obra de gestação». Aquele que lê/escuta a Palavra empenha-se com toda a sua vida, entra em diálogo com o texto bíblico, «interpela-o, gera-o para que se torne Palavra» na sua própria vida. E a própria Palavra «tornada viva, toca o ser humano contemporâneo na sua identidade e gera-o para um acréscimo de humanidade». Desta reciprocidade evidencia a «alegria do encontro entre Deus que se dá e o crente que se abre à sua presença».

 

Tempo Comum: gerar fé

Gerar fé. É a temática que propomos para a primeira parte (entre a festa litúrgica do Batismo de Jesus e o início da Quaresma) do designado «Tempo Comum» — tradução oficial da expressão latina «tempus per annum», à letra, «tempo durante o ano». A nós, parece-nos que teria sido melhor manter a tradução literal, pois a terminologia de Tempo Comum «não parece muito feliz, pela fácil associação a tempo ‘pouco importante’ ou ‘anódino’ […]. Mas o Tempo Comum tem a sua particular importância. […] Apresenta-nos valores que não se podem esquecer: ajuda-nos a ir vivendo o mistério de Cristo na sua totalidade; acompanha-nos na tarefa de crescimento e maturação de tudo o que celebrámos no Natal e na Páscoa; põe em evidência a primazia do domingo cristão; oferece-nos a escola permanente da Palavra bíblica; e faz-nos descobrir a graça do comum: a vida quotidiana vivida também como tempo da salvação» (José Aldazábal, «Dicionário Elementar de Liturgia», ed. Paulinas). A partir destes «valores» sugerimos um itinerário que permita frequentar duas «escolas»: a «escola permanente da Palavra bíblica» através dos textos propostos para a primeira leitura de cada domingo; a escola «do mistério de Cristo a sua totalidade». Este há de ser um «tempo favorável» para a gestação da fé. Não se trata de «técnica ou um procedimento particular», mas de um processo que «torna possível o nascimento e o amadurecimento da fé», um processo que permita novos «partos». Sem excluir aqueles/as que ainda não fizeram a experiência do encontro pessoal com Jesus Cristo, o objetivo é ajudar cada cristã/o a aprofundar a importância do «discipulado» (um dos «aspetos fundamentais» na formação do discípulo missionário proposto pelo Documento de Aparecida). Por outro lado, «hoje é urgente compreender melhor a própria identidade entre o ser cristão e o interesse pela fé humana de ‘qualquer pessoa’ na vida, as estruturas da sociedade que a favorecem ou destroem de forma insensível, devendo ser examinadas e transformadas a partir do próprio interesse de Cristo por todos». Assim, não é possível, nem recomendável, indicar a todos um caminho único. A pastoral da gestação alimenta-se do desejo de «fazer cada um chegar à sua identidade própria e vela por que cada indivíduo seja coerente consigo próprio nas decisões que toma».

 

Laboratório da Fé anunciada

«A pessoa amadurece constantemente no conhecimento, amor e seguimento de Jesus Mestre, se aprofunda no mistério de sua pessoa, de seu exemplo e de sua doutrina. Para esse passo são de fundamental importância a catequese permanente e a vida sacramental, que fortalecem a conversão inicial e permitem que os discípulos missionários possam perseverar na vida cristã e na missão no meio do mundo que os desafia» (Documento de Aparecida, 278). Destas palavras dos bispos da América Latina e do Caribe destacamos três tópicos: amadurecer no seguimento de Jesus Cristo, catequese permanente e vida sacramental. Três tópicos essenciais para uma «fé anunciada», na qual o ponto de partida é este anúncio alegre: «Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te salvar, e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar» (Francisco, Exortação Apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual — «Evangelii Gaudium» [EG], 164). A partir daqui, desenvolve-se uma «fé anunciada» que orienta para uma dinâmica catecumenal subjacente à (re)descoberta da identidade cristã.