Junho 2016 | Mês do Coração de Jesus

Coração de Misericórdia

1. Junho. 2016

O mês de Junho é tradicionalmente dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, máxima expressão humana do amor divino. Mais do que uma ‘devoção’, trata-se de promover uma salutar espiritualidade alicerçada no Coração de Jesus, no qual se pode encontrar descanso e com o qual se pode aprender a misericórdia divina.

«O mês de Junho é tradicionalmente dedicado ao Sagrado Coração de Jesus, máxima expressão humana do amor divino. […] A piedade popular valoriza muito os símbolos, e o Coração de Jesus é o símbolo por excelência da misericórdia de Deus; mas não é um símbolo imaginário, é um símbolo real, que representa o centro, a fonte da qual brotou a salvação para a humanidade inteira» (Francisco, 9 de junho de 2013). A Bíblia mostra-nos que o «coração» não evoca apenas sentimentos, a dimensão afetiva da pessoa, mas remete também para outras dimensões e até para a totalidade do ser, a sua personalidade. E também na linguagem comum o coração está associado à fonte da vida e ao que caracteriza a essência da pessoa. É nesta perspetiva que queremos recentrar a tradicional proposta de associar o mês de junho ao Coração de Jesus: o «coração» é a síntese da pessoa de Jesus Cristo; por isso, a Igreja, através do Magistério dos Papas, apresenta esta espiritualidade como a «síntese da vida cristã».

Junho, Mês do Coração de Jesus

A história mostra-nos a importância que o culto popular ao Sagrado Coração de Jesus teve, durante séculos, na revelação da misericórdia divina. Depois de um tempo em que se desvaneceu e/ou se desvalorizou esta prática, a celebração do Ano Santo da Misericórdia é uma oportunidade para recuperar a sua frescura original. É certo que as representações que mostram um coração rodeado com uma coroa de espinhos não são a melhor imagem para anunciar a misericórdia divina. Até porque a associação imediata dessa imagem apenas ao coração físico de Jesus Cristo não exprime nem a totalidade nem a dimensão mais adequada da espiritualidade associada ao Sagrado Coração de Jesus. Outro aspeto negativo foi o enfoque demasiado «particular» que se atribuiu a este culto, associando-o quase em exclusivo a revelações privadas. Ora, um dos fundamentos a destacar são as raízes bíblicas que se podem relacionar com o culto ao Sagrado Coração de Jesus; entre outras, a afirmação do próprio Jesus Cristo: «Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. […] Aprendei de Mim, que sou mando e humilde de coração, e encontrareis descanso» (Mateus 11, 28-29). Por isso, neste tempo atual classificado como «sociedade do cansaço» (Byung-Chul Han), será uma mais valia deixar ressoar com maior intensidade estas palavras. Depois, importa ainda alertar que esta espiritualidade fundada no culto ao Coração de Jesus não pode consistir apenas em «recitar algumas orações ou fazer algumas ‘devoções’ em sua honra, mas deveria significar procurá-lo e encontrá-lo em tudo, ou seja, na inteira Liturgia da Igreja, a começar pela Missa, compreendendo e contemplando, na reflexão e na oração, o inteiro mistério de Cristo e testemunhando-o na vida, escolhendo e desejando para nós aquilo que Cristo escolheu e desejou, isto é, revestindo-nos dos sentimentos do seu Coração» (Ottavio De Bertolis). Trata-se, portanto, mais do que uma ‘devoção’, promover uma salutar espiritualidade alicerçada no Coração de Jesus, no qual se pode encontrar descanso e com o qual se pode aprender a misericórdia divina. «No Sagrado Coração de Jesus reconhecemos que o próprio Deus tem o coração (‘cors’) orientado para nós, os pobres (‘miseri’) — em sentido amplo — ou seja, que Deus é ‘misericors’, misericordioso. Assim, o Sagrado Coração de Jesus é símbolo do amor de Deus incarnado em Jesus Cristo» (Walter Kasper, Misericórdia, Lucerna, 143).

Laboratório da fé anunciada

Em sintonia com o tempo litúrgico (Tempo Comum: gerar comunhão) a espiritualidade proposta para o mês de junho une o Coração de Jesus com as temáticas da comunhão e da misericórdia. Esta não é «um sentimento passageiro, mas é a síntese da Boa Nova, é a opção de quem quer ter os sentimentos do ‘Coração de Jesus’» (Francisco, 21 de dezembro de 2015). Então, da comunhão com o amor de Jesus Cristo — «Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te salvar, e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar» (EG 164) — brota «a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho […]. No nosso tempo, em que a Igreja está comprometida na nova evangelização, o tema da misericórdia exige ser reproposto com novo entusiasmo e uma ação pastoral renovada. É determinante para a Igreja e para a credibilidade do seu anúncio que viva e testemunhe, ela mesma, a misericórdia. A sua linguagem e os seus gestos, para penetrarem no coração das pessoas […], devem irradiar misericórdia» (Bula de Convocação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, 12).