Primeiro Domingo da Quaresma | Ano C

Meu pai era um arameu errante

12. Fevereiro. 2016

A Quaresma é o tempo da liberdade e da escolha, o tempo da conversão e do amor. A Liturgia da Palavra apresenta as escolhas necessárias para seguir no caminho para Deus, mas também fala da fidelidade e da bondade divinas. Em 2016, o Primeiro Domingo da Quaresma celebra-se no dia 14 de fevereiro.

A Quaresma é o tempo da liberdade e da escolha, o tempo da conversão e do amor. A Liturgia da Palavra apresenta as escolhas necessárias para seguir no caminho para Deus, mas também fala da fidelidade e da bondade divinas. A prova está na profissão de fé de Moisés diante do povo (primeira leitura) e na confiança do salmista (salmo). Paulo insiste no fator decisivo da fé para a salvação (segunda leitura), deixando a cada um/a a liberdade da escolha. Mas é Jesus Cristo que, no deserto, nos mostra verdadeiramente como resistir às tentações, graças à palavra de Deus, e como escolher o caminho da vida (evangelho).

«Meu pai era um arameu errante»

O livro do Deuteronómio inspirou a grande história do povo bíblico, no período que se estende desde o livro de Josué até ao Segundo Livro dos Reis. O critério fundamental é que a memória da comunidade de fé não só permite a cada geração do povo de Deus reviver os grandes acontecimentos salvíficos que Deus fez no passado, mas também torna possível abrir-se à compreensão da atividade incessante de Deus nas suas próprias vidas (nas nossas vidas). O Deuteronómio ajuda a entender que, quando um povo esquece o seu passado, perde o presente e o futuro.
O fragmento proposto para primeira leitura do primeiro domingo da Quaresma (Ano C) diz respeito à festa celebrada depois das primeiras colheitas do ano. Era uma ocasião para agradecer o dom de Deus que faz a terra produzir frutos. Provavelmente, a oferenda faz parte da festa de Pentecostes, que se realizava sete semanas depois da Páscoa judaica, no final do tempo das ceifeiras. O fiel apresentava-se no templo com uma cesta que continha uma pequena parte da colheita entendida como dom de Deus.
A confissão de fé pronunciada é um recital da história de Israel, que começa por recordar os tempos mais antigos: «Meu pai era um arameu errante» (uma provável referência a Jacob ou até a Abraão!). Deus respondeu ao clamor do povo oprimido numa terra estrangeira, dando-lhe a liberdade e uma terra para viver em segurança. A «terra» é uma constante na teologia deuteronomista e nas releituras posteriores: terra prometida (Génesis), esperada (Êxodo, Números e Deuteronómio), alcançada (Josué) e agradecida. Os frutos que naquela circunstância se oferecem a Deus são uma demonstração da confiança contínua no cuidado divino ao povo.
Um exegeta do século passado (von Rad) apelidou este texto de «credo histórico» de Israel. Apesar de não ser o único «credo histórico» que encontramos no Antigo Testamento — existem outros: Salmo 78; Salmo 106; Nehemias 9, 7 e seguintes —, podemos dizer que este é o mais significativo.

Através da narração histórica, a comunidade de fé entende a sua própria identidade: a alegria pela salvação obtida, que é, ao mesmo tempo, passada, presente e futura. A fé não se centra em formulações doutrinárias estranhas mas em factos históricos. Além disso, percebe-se uma ligação entre a fé professada e a fé celebrada. A fé e a liturgia de Israel, e também a da Igreja, são memorial.

Primeira leitura — texto bíblico

Deuteronómio 26, 4-10

Moisés falou ao povo, dizendo: «O sacerdote receberá da tua mão as primícias dos frutos da terra e colocá-las-á diante do altar do Senhor teu Deus. E diante do Senhor teu Deus, dirás as seguintes palavras: ‘Meu pai era um arameu errante, que desceu ao Egito com poucas pessoas, e aí viveu como estrangeiro até se tornar uma nação grande, forte e numerosa. Mas os egípcios maltrataram-nos, oprimiram-nos e sujeitaram-nos a dura escravidão. Então invocámos o Senhor Deus dos nossos pais e o Senhor ouviu a nossa voz, viu a nossa miséria, o nosso sofrimento e a opressão que nos dominava. O Senhor fez-nos sair do Egito com mão poderosa e braço estendido, espalhando um grande terror e realizando sinais e prodígios. Conduziu-nos a este lugar e deu-nos esta terra, uma terra onde corre leite e mel. E agora venho trazer-Vos as primícias dos frutos da terra que me destes, Senhor’. Então colocarás diante do Senhor teu Deus as primícias dos frutos da terra e te prostrarás diante do Senhor teu Deus».

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