Ano Pastoral 2016+17

Natal 2016: Interioridade

25. Dezembro. 2016

O evangelista Lucas, por duas vezes, refere que Maria conservava todos estes acontecimentos, meditando-os em seu coração (capítulo 2, versículos 19 e 51). Conservar e meditar são dois verbos, duas atitudes essenciais na valorização da interioridade. Digamos que são complementares, na medida em que exprimem duas dimensões próprias da capacidade humana em recordar, fazer memória. Ainda que não se possa estabelecer uma divisão clara entre uma atitude e outra, é razoável associar o verbo conservar à memória “cerebral” (do cérebro) e o verbo meditar à memória “cordial” (do coração). O tempo de Natal decorre entre 25 de dezembro de 2016 e 8 de janeiro de 2017.

A oportunidade de “um tempo diferente” mantém a pertinência na dinâmica litúrgica e pastoral que teve início no Advento e desemboca no Natal. O tempo caracterizado pelo silêncio, sugerido pelo filósofo Byung-Chul Han no ensaio intitulado Fecha os olhos, por favor, abre-nos ao sentido da vida, sentido esse que leva a mergulhar cada vez mais na profundidade do ser, na interioridade. Sim, a beleza e a grandeza do silêncio conduz à interioridade, temática proposta para o tempo de Natal (período que decorre entre os dias 25 de dezembro e 8 de janeiro). A partir do interior do ser, pelo silêncio, pode-se assimilar os acontecimentos, chegar à contemplação, encontrar um “tempo bom”, isto é, um tempo com ritmo, pois quando se perde o ritmo, “desaparece também todo o tempo justo ou bom”.

Mãe do recordar

Maria é uma mulher de interioridade: “interiorizada pela Palavra de Deus, que fez dela sua Mãe, e interiorizadora da Palavra de Deus, transformando-a no seu Filho” (Domingo Montero, Queremos ver Jesus!, Difusora Bíblica). A sua presença exprime-se de uma forma discreta mas oportuna, sem protagonismos. “Viveu na normalidade da fé, e viveu a fé com normalidade”. Deixou-se tocar pelo espanto da vida. O evangelista Lucas, por duas vezes, refere que Maria conservava todos estes acontecimentos, meditando-os em seu coração (capítulo 2, versículos 19 e 51). Conservar e meditar são dois verbos, duas atitudes essenciais na valorização da interioridade. Digamos que são complementares, na medida em que exprimem duas dimensões próprias da capacidade humana em recordar, fazer memória. Ainda que não se possa estabelecer uma divisão clara entre uma atitude e outra, é razoável associar o verbo conservar à memória “cerebral” (do cérebro) e o verbo meditar à memória “cordial” (do coração). A primeira, relacionada com o “arquivo de dados” na inteligência, corre sempre o risco do esquecimento. Até mesmo as tecnologias que se vangloriam da capacidade em armazenar dados estão sempre sujeitas à perda desses dados, quer seja por uma falha de funcionamento, quer pela erosão do tempo, quer pelos ataques deletérios perpetrados com a intenção de os fazer desaparecer. Nem o mais sofisticado backup se apresenta totalmente seguro. Ao contrário, a memória “cordial”, relacionada com o calor das vivências guardadas no coração, permanece para sempre, pois o “coração” jamais esquece as palavras e os acontecimentos que nele são conservados e meditados. “Maria ensina a interiorizar a vida, a depositá-la nesse espaço seguro, à prova de amnésias, que é o coração”. Maria é, pois, Mãe do recordar como evoca Chiara Casucci num poema musicado por Mite Balduzzi.  “Enquanto a memória cerebral se alimenta apenas de experiências, a memória cordial alimenta a esperança. E cultivar esta memória do coração não é uma ingenuidade: é a maior audácia. Só os fortes são capazes disso. A memória do coração sabe fazer da vida, com as suas luzes e as suas sombras, alegrias e sofrimentos, um ‘magnificat’ de gratidão, louvor e alegria, como soube Maria” (Domingo Montero). A vivência da interioridade, com e como Maria, impele-nos a fazer nosso o seu louvor pelas maravilhas de Deus operadas na sua vida e na nossa (a atitude do “louvor” vai dinamizar o Tempo Comum).

Laboratório da Fé contemplada

Maria conservava todos estes acontecimentos, meditando-os em seu coração (Lucas 2, 19). Ela conhecia parte da verdade. Há de tornar-se guardiã e mediadora do mistério daquele Menino, no qual se encontram e se reconciliam o divino e o humano. Por enquanto, a realidade é demasiado ampla para ser compreendida de um só fôlego; é preciso ir meditando-a no coração. Que belo testemunho de fé contemplada! Neste contexto, o entrelaçar destas duas atitudes (conservar e meditar) exprime-se na capacidade em rezar, isto é, ler a vida a partir de Deus: contemplar. A vida torna-se lugar da presença do divino, fica “grávida” de Deus para o “dar à luz” no quotidiano. É claro que a presença de Deus não depende de nós, até porque “Ele está no meio de nós”. E quando dizemos que Deus está no meio de nós não o afirmamos em termos geográficos, mas que está em nós, habita-nos: é Deus connosco. O desafio humano consiste em perceber e acolher essa presença, como Maria. Na verdade, a interioridade própria de uma fé contemplada não me pede um mero exercício de introspeção, mas o reconhecimento da presença de Deus em mim, no meu ser.