Ano Pastoral 2016+17 | Ano A

Quaresma 2017: Penitência

1. Março. 2017

A Quaresma é um “processo narrativo”, por conseguinte, não acelerado, antes um tempo com ritmo. Assume um ritmo próprio que evolui na preparação ou renovação das promessas batismais e na dinâmica penitencial. Esta, considerada em termos pessoais e comunitários, pode ser tomada como sinónimo de conversão e de renovação cristã. É, pois, sobre o caráter batismal que se apoia a dimensão penitencial da Quaresma. Em 2017, o início da Quaresma acontece no dia 1 de março (Quarta-feira de Cinzas).

“O princípio e o fim de um processo oferecem uma conexão com sentido, uma unidade com sentido, quando estão interligados um com o outro. […] Também os rituais e as cerimónias são formas de conclusão”. O filósofo Byung-Chul Han, num ensaio sobre o tempo (Fecha os olhos, por favor), parte desta afirmação para sugerir uma mudança de paradigma ou, pelo menos, uma atenção mais cuidada à nossa maneira de estar no tempo. Urge assumir uma dinâmica temporal que lhe devolva o seu “aroma”. A Quaresma é essa ocasião propícia para abrandar o ritmo acelerado e a superficialidade da nossa vida, acalmar, pacificar, deixar que o amor de Deus ressoe no nosso coração. É um tempo de introspeção serena, de contemplação, de reconciliação profunda connosco, com Deus e com os outros.

Fátima: Ano Mariano

Não é adequado sugerir a Quaresma como um tempo triste! Antes de tudo, é um tempo de preparação para a Páscoa. “A Quaresma é um novo começo, uma estrada que leva a um destino seguro: a Páscoa de Ressurreição, a vitória de Cristo sobre a morte” (Francisco, Mensagem para a Quaresma de 2017). Neste sentido, a Quaresma é um “processo narrativo”, por conseguinte, não acelerado, antes um tempo com ritmo. Assume um ritmo próprio que evolui na preparação ou renovação das promessas batismais e na dinâmica penitencial. Esta, considerada em termos pessoais e comunitários, pode ser tomada como sinónimo de conversão e de renovação cristã. É, pois, sobre o caráter batismal que se apoia a dimensão penitencial da Quaresma. Por isso, a penitência tem de ser entendida como um meio ou um fruto e nunca a causa ou origem da conversão. “As penitências não se fazem para sofrermos. Fazem-se para melhorarmos. Para nós, cristãos, uma ‘penitência’ não é algo que custa mas um exercício que ajuda a ficar melhor pessoa. […] Abstemo-nos de coisas boas se isso nos ajuda a alcançar outras melhores” (Nuno Tovar de Lemos, Mensageiro do Coração de Jesus, março de 2017). Para tal, precisamos de disposições básicas sem as quais não há conversão possível: a chave é o descentrar-se, deixar de estar voltado para si e colocar o centro no essencial. A esmola centra-nos nas necessidades dos outros; a oração centra-nos no encontro com Deus; o jejum reúne as duas anteriores na centralidade do essencial. Estas práticas tradicionais do tempo quaresmal fazem a ponte com o “Ano Mariano” que celebramos a propósito do Centenário das Aparições em Fátima. A oração e a penitência estão entre os pontos centrais da Mensagem de Fátima: são a resposta dos Pastorinhos às interpelações da Senhora (e do Anjo). A primeira aparição mariana (13 de maio de 1917) traz um pedido com um carácter penitencial: “Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?”. Deixando de lado o que não é essencial (que só se pode compreender no contexto próprio daquelas crianças), há um conteúdo profundo que se repete hoje: “Quereis oferecer-vos a Deus… pela conversão dos pecadores?”. Eis o essencial que há de orientar a concretização criativa das penitências quaresmais: oferecer a vida a Deus pela nossa conversão, pecadores e confiantes na misericórdia divina.

Laboratório da Fé contemplada

No contexto mariano que orienta a dinâmica pastoral, apropriamo-nos das palavras de São João Paulo II na Carta Apostólica sobre o Rosário (RVM), para as aplicar ao tempo quaresmal. Assim, nesta Quaresma somos também convidados a frequentar a “escola de Maria”, para nos deixarmos “introduzir na contemplação da beleza do rosto de Cristo e na experiência da profundidade do seu amor” (RVM 1). Da mesma forma, podemos dizer que a fé contemplada “tem em Maria o seu modelo insuperável” (RVM 10). Ousamos apresentar duas propostas concretas para entrar na “casa” e na “escola” de Maria: A Via Sacra: Orai Assim (edições Salesianas) e a recitação do terço, em especial os mistérios da dor. Uma e outra, “a partir da experiência de Maria”, são “uma oração marcadamente contemplativa” que requerem “um ritmo tranquilo e uma certa demora a pensar, que favoreçam, naquele que ora, a meditação dos mistérios da vida do Senhor, vistos através daquele que mais de perto esteve em contacto com o mesmo Senhor, e que abram o acesso às suas insondáveis riquezas” (RVM 12).