Tempo Comum | Anos Pares

Primeiro e Segundo Livros dos Reis

6. Junho. 2016

Durante três semanas, entre a décima e a décima segunda semana dos «anos pares», a liturgia oferece-nos para primeira leitura textos retirados dos Primeiro e Segundo Livros dos Reis: são livros que enquanto narram a experiência histórica da monarquia, interpretam-na com a inteligência do profeta, ou seja, perscrutando as trajetórias de morte ou de vida ocultas, mais ou menos conscientemente, nas decisões das pessoas em particular.

Durante três semanas, entre a décima e a décima segunda semana dos «anos pares», a liturgia oferece-nos para primeira leitura textos retirados dos Primeiro e Segundo Livros dos Reis.

 

Visão de conjunto

À primeira vista não é errado descobrir um caráter histórico nestes Livros, que narram factos e acontecimentos que remontam à época monárquica de Israel.

Existe todavia também uma continuidade narrativa específica e uma coerência de juízo a respeito da monarquia, tanto é verdade que a Bíblia hebraica os considera um só Livro (a divisão em dois Livros remonta à tradução grega dos LXX, seguida pela Vulgata latina) e coloca-os entre os «profetas anteriores» (juntamente com Josué, Juízes e os dois Livros de Samuel), ao passo que a Bíblia católica os chama «históricos».

Por conseguinte, o Primeiro e o Segundo Livro dos Reis são livros que enquanto narram a experiência histórica da monarquia, interpretam-na com a inteligência do profeta, ou seja, perscrutando as trajetórias de morte ou de vida ocultas, mais ou menos conscientemente, nas decisões das pessoas em particular.

Um destaque a esse respeito é dado pela colocação das narrativas acerca dos profetas Elias e Eliseu mesmo no centro dos dois livros, considerados como um só (1Reis 17 – 2Reis 13).

A composição dos Livros dos Reis é guiada pelo juízo de quem escreve (a escola deuteronómica), diligente em sublinhar de cada vez a fidelidade/infidelidade de cada soberano à Lei de Deus (escrita no Livro do Deuteronómio) em todas as expressões do seu governo. Ou então, alterando a perspetiva, são localizadas no comportamento pecaminoso/idólatra de alguns reis e as razões de certos acontecimentos históricos dolorosos, como a queda da Samaria antes, e a destruição do Templo de Jerusalém depois, com a consequente deportação do povo para Babilónia. Isto mostra-se claro ao admitir que o Livro dos Reis tenha sido redigido no tempo do exílio.

Geralmente, o princípio que orienta o juízo do hagiógrafo é o retributivo: quem observa a Lei é recompensado com o bem, quem é infiel à Lei e ao Senhor recebe o castigo.

 

Na liturgia

A leitura litúrgica, enquanto segue a sucessão histórica dos acontecimentos, acentua pelo menos quatro elementos do Primeiro Livro dos Reis.

Antes de mais, a «sabedoria» do rei Salomão, que o soberano pediu ao Senhor no início do seu cargo como o mais precioso de todos os dons, do qual advém qualquer outra riqueza, capacidade e fama (leitura dos capítulos 3, 8, 10).

Em segundo lugar, a armadilha da idolatria, em cujas malhas caiu também o rei sábio perto do fim da sua vida (capítulo 11).

Segue-se o cisma político de Jeroboão I, ou seja, a divisão de Israel em dois reinos, cisma esse que teve grandes implicações religiosas, porque o reino do Norte abandona JHWH e faz dois bezerros de ouro (capítulo 12). Neste pano de fundo idolátrico destaca-se a figura do rei Acab (capítulo 21).

Finalmente é deveras relevante o papel do profetismo com a figura de Elias, sobre a qual a liturgia nos convida a meditar durante sete dias.

Dando continuidade ao Primeiro Livro, a leitura do Segundo Livro dos Reis apresenta o episódio de Eliseu, primeiro como sucessor de Elias (leitura do capítulo 2), depois juntamente com o seu mestre no díptico apresentado no capítulo 48 de Ben Sirá.

Respeitando a composição do Segundo Livro dos Reis, que segue em paralelo a história dos dois reinos divididos, também a liturgia medita desde o princípio a parábola do. reino do Norte, detendo-se sobre a figura do rei Joás (capítulo 11), sobre a morte do profeta Zacarias (extraída do capítulo 24; 2Crónicas) e sobre a queda da Samaria, acontecida em 722 antes de Cristo, por obra dos Assírios (retoma a leitura de 2Reis com os capítulos 17 e 19).

Em seguida recorda a importante reforma religioso-política feita no reino do Sul pelo piedoso rei Josias (capítulo 22), a qual pouco modificou a sorte do povo.

Em 587 antes de Cristo, cerca de dez anos depois do primeiro assédio pelo exército babilónio, que custou o exílio ao rei Joaquim (capítulo 24) depois de tenaz resistência, Jerusalém capitula sob Nabucodonosor. O Templo é incendiado, a cidade destruída, o rei Sedecias brutalmente exilado juntamente com parte da população (capítulo 25).

É intensa e apropriada a escolha de concluir a leitura dos dois Livros dos Reis com uma página do Livro das Lamentações, onde um sobrevivente da catástrofe chora diante das ruínas de Jerusalém.

© Giuseppe di Carlo | Editora Paulus
© Adaptado pelo Laboratório da fé